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UMA SÓ COISA É NECESSÁRIA

VERMEER JOHANNES, Christ In The House Of Mary And Martha

VERMEER JOHANNES, Cristo em casa de Maria e de Marta

A LUZ APELA AO DIVINO

Quando se cantam as maravilhas de Deus, o coração estremece de gratidão. Uma vez que essas maravilhas são sempre a favor dos homens. E no caso da primeira leitura (refiro-me ao livro do Êxodo), Moisés e o povo fazem uma sinfonia: Moisés faz de solista, repetindo o que ouve do Senhor e transmitindo-o ao povo, com fidelidade e o povo, por sua vez, responde em coro, contagiando o próprio deserto de entusiasmo e confiança.

Na realidade, cantar não é apenas entoar uma melodia sabida; é vibrar de alegria e comoção, ao saborear o que se diz e ao sentir como os ouvintes se deixam contagiar. E as palmas finais, também fazem eco dessa alegria ambiental que se prolonga ritmadamente e põe em comunhão quem actua e participa.

Claro que Moisés não tinha partitura nem trazia do Egipto melodias ensaiadas. Mas a experiência de maravilhas, isso sim (e o Mar Vermelho era testemunha!). Além disso, o monte Sinai, no meio do deserto, tornou-se um lugar de diálogo e intimidade com Deus, e o povo ia adquirindo consciência da importância da ‘mediação’, através de Moisés e, mais tarde, dos profetas. Não há dúvida que um bom regente compromete e harmoniza todo o coro e empolga a assistência. Foi assim naquele tempo, e é hoje, quando pela fé nos sentimos igualmente profetas e pela convicção damos testemunho com a vida e fazemos comunhão. E tudo isto é missão e apelo à santidade.

Moisés, entretanto, cobria o rosto com um véu, como quando o regente (ou ‘maestro’) se retira do palco, para interiorizar o êxito obtido, à conta do coro todo. Simplesmente, Moisés sabia a quem atribuir a transparência do seu rosto, e queria que o povo desse graças a Deus e não desafinasse, à conta dos desalentos e da tentação dos ídolos, que o seduziam ainda. O coração de Moisés era inteiramente atraído por Deus; e ele, olhando para o mesmo Deus, queria que o povo se deixasse atrair também, até à ‘sinfonia’ dos Mandamentos acolhidos com entusiasmo e cantados com a vida. Só assim, a melodia seria perfeita e o povo sentir-se-ia ‘povo de Deus’.

Mas voltando a olhar para o cenário, assiste-se a um ritual de entradas e saídas ritmadas, que não fazendo parte da melodia, ajudam a concentrar as atenções e a apreciar os personagens. Ora, com a ‘Tenda da reunião’, acontecia algo de semelhante: o povo aguardava que Moisés se demorasse no interior da Tenda e na intimidade com Deus; e, depois de sair, escutava as palavras de Moisés, como se ouvisse a voz de Deus. Será assim a nossa vida contemplativa? E a nossa oração, feita a sós e em comunidade? O mundo é maior no nosso coração do que em toda a geografia do espaço: isto, quando Deus está presente e é o centro da nossa vida. Então, entremos na Tenda mais vezes e guardemos silêncio (sabendo, muito embora, que o mundo não entende este gesto e até o classifica como desperdício!).

RESSURREIÇÃO É VIDA

Entretanto, a sinfonia prossegue, agora, em Betânia, sendo mais bela ainda. Pois, a Tenda da reunião já não fica à beira do Sinai (nem sequer dos montes: Sião, Ebal ou Garizim), mas onde Deus é Emanuel, isto é, Deus-connosco. E a libertação da escravidão mais radical – que é a morte, é feita pela vida. Quer dizer: Jesus volta a página da partitura e manda sair Lázaro do túmulo. Não que esta seja a melodia mais perfeita; mas, para fazer entender a Marta, aos discípulos e aos curiosos do tempo, que Deus a vai compor doutro modo, e bem diferente da que se respirava na tradição judaica. Com efeito, esta acreditava que Deus devolveria a vida aos que tivessem cumprido a Lei, compensando-os de todos aqueles bens que não tinham podido usufruir nesta vida. E tal compensação era imaginada ao jeito duma vida corrigida, melhorada, e muito ao gosto dum conceito materialista.

Jesus, porém, assumindo a regência do coro, faz com que a ressurreição e a vida sejam termos afins e afinados; isto é: a ressurreição é vida e a vida é ressurreição. E, assim, esta melodia resulta harmoniosamente perfeita! Simplesmente, Marta e os demais (que somos nós, também), deviam prestar atenção às palavras de Jesus, pois aquilo que na tradição judaica (o julgamento e a vida) só haviam de ter lugar no fim dos tempos… com Jesus a reger, tornam-se realidades actuais. Ou seja, aquilo que Deus – autor da vida, realiza na hora da consumação (ou glorificação) de Jesus, também o comunica aos seus fiéis, desde que depositem fé naquele Seu ‘enviado’.

Deste modo, a narração de João, sobre a ressurreição de Lázaro, aparece corno uma representação plástica da afirmação feita por Jesus e a Seu respeito: ‘ressurreição e vida’. E o que quer isto dizer, afinal? Que Jesus, sendo Vida, também a comunica aos seus. Ou, doutro modo, ainda: quem acolhe a Sua palavra e acredita n’Aquele que O enviou, já passou da morte à vida. Por isso, o coro da fé que Jesus rege (pois, a Igreja é Ele e nós!), ecoa, simultaneameente, no tempo e na eternidade, E os outros coros que cantam as maravilhas de Deus, devem ter isto bem presente. Ou será que a Vida (com letra maiúscula) não merece ser cantada com vozes afinadas e vocalização bem treinada? Para isso, são necessários esforços como este, que tanto dignifica a Liturgia e vai dando brio e inspiração às Dioceses. E, ao mesmo tempo, desperta novos candidatos que apetecem a música sacra e enriquecem os coros das Igrejas.

Mas voltemos ao texto do Evangelho, para não comprometer o canto e a melodia. Já são três os participantes (Marta, Maria e Lázaro), além dos Doze que acompanham Jesus. Outros que chegam, trazem mais curiosidade do que vontade de entrar no coro. Pois, acham que ressuscitar um morto, pode angariar mais adeptos a favor do Nazareno. E, aqui, a desafinação é total, afirmando: precisamos de dar conta deles!… E isto deixa-nos a sensação da cultura da morte, de que o nosso tempo é fértil!

Jesus, porém, como garantia da vida, não nos dispensa, decerto, da morte natural; mas oferece muito mais do que Marta pedia. Pois, a morte do crente já não é a destruição e o fim, como se nela ficasse sepultado; é, antes, a superação da morte conseguida pela vida. isto, ao jeito dos contrastes musicais, entre o mais piano e mais forte, e que empolgam a assistência, ao longo dos concertos. E porquê, assim? Porque Deus, que é vida, não pode nem quer abandonar os seus, no momento derradeiro ou supremo. O que faz, é introduzi-los no Reino, onde já não há lugar a pranto nem a dor e, muito menos, a morte. Por isso, convém corrigir a liturgia funerária, comunicando mais esperança e menos lágrimas; posto que estas exprimam sentimentos que falam de amor e saudade.

Sobretudo, precisamos de olhar para o divino crucificado e sentir a vida que Ele inspira e a esperança que Ele oferece. Ou, se quisermos, ainda: ouvindo, de novo, as palavras ditas a Marta: “Quem acredita em Mim, embora venha a morrer, viverá; e todo aquele que acredita em Mim, nunca mais morrerá. Á creditas nisto”? “Eu acredito, Senhor”… respondeu Marta. Façamos também nós, este acto de fé. Rezado ou cantado? Com a vida, que engloba as duas coisas. Mas, sempre, no intuito de valorizar a Liturgia, cantando encantando. Pois, tudo isto deixa no coração um sabor a paz e enche a vontade de gratidão. E se o serviço de Marta a inquieta, e inquieta a Jesus por causa de Maria, tudo se harmoniza no compasso final, com que o Mestre (ou ‘maestro’) sabe encerrar o concerto, sublinhando o essencial: “unum est necessarium”!

Fátima, 29 de Julho de 2009 – ENCONTRO NACIONAL DE LITURGIA
Homilia de D. Augusto César, Bispo emérito de Portalegre – Castelo Branco

Marta, personagem bíblica do Novo Testamento, residia em Betânia (nas proximidades de Jerusalém) e era irmã de Maria e de Lázaro (Jo 11-12; Lc 10,38-42). Jesus era seu amigo e de seus irmãos e frequentava a sua casa (Jo 11,3; 12,3). Primogénita e dona de casa, Marta representa a vida activa, ao passo que a irmã Maria simboliza a contemplativa. Em várias lendas cristãs, Marta, juntamente com Maria e Lázaro, aparecem como missionários no sul da França.

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